domingo, 17 de maio de 2009

Hospedeira de mim

Dentro de mim não tem sido um bom lugar para se viver na maior parte do tempo. Tem sido escuro, tem sido frio, tem sido úmido. Muitas palavras não ditas circulam e se atropelam. Muitos sentimentos não expressados lutam para ver qual consegue sair apenas um pouquinho. Muitas lágrimas estão quase arrebentando a represa. Muita dor que já devia ter ido embora.

Mas em alguns momentos é muito bom dentro de mim. Aromas, cores e risos.

Quando estou com meus amigos, meu pequeno e fiel band of brothers, o sol nasce, a brisa fresca entra pelas janelas, o aroma e as cores das flores do campo invadem a casa.

Quando estou com as crianças que me cercam é o cheiro de brigadeiro na panela que invade uma cozinha ampla e iluminada. E se espalha por um quintal ensolarado cheio de brinquedos e risadas.

Quando estou com meu cão vem o cheiro de terra molhada, o sol reaparece gostoso e quente após a chuva e eu dou um bom banho de mangueira aqui dentro.

Quando meus olhos cruzam com os seus é a maresia que chega. Os pés molhados caminhando na areia, o cheiro do mar, o vento nos cabelos. Toca Chico Buarque dentro de mim e tudo é quente e acolhedor.

E só nesses momentos é bom viver dentro de mim.


domingo, 26 de abril de 2009

Roda Viva / Chico Buarque

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...

A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Desafinados no Rio de Janeiro

Quando você acha que esqueceu, ou ao menos deixou escondido bem no fundo, vem a lembrança.
Um show que você adoraria, com aquela música que você cantou pra mim no nosso boteco preferido.
E, no dia seguinte, um filme naquele cinema que fomos. O nosso primeiro cinema juntos. E o filme também me lembra um detalhe de você.
E aquela livraria na qual lemos juntos um trecho daquele livro. E tomamos um café. E rimos. E cantamos desafinados.
Almas sempre desafinadas, desencontradas.

domingo, 12 de abril de 2009

Seu Chico - Jorge Maravilha

Descobri esses meninos pernambucanos ontem.
Para começar bem a semana.

http://www.youtube.com/watch?v=mxeKGt7LSzg

terça-feira, 10 de março de 2009

Felicidade simples

Ressaca de carnaval na Fundição: Monobloco na área VIP, grudada no palco, com espaço à vontade para dançar, caipirinha no ponto e cerveja gelada.

Um sábado de trabalho muito produtivo.

Um domingo que começa com Vik Muniz no MAM e continua com churrasco, cerveja e muitas risadas.

Tô pronta para a semana...

terça-feira, 3 de março de 2009

Nem precisa título nesse post...


sábado, 28 de fevereiro de 2009

Band of brothers da Fal

De novo a Fal escrevendo o que passa na cabeça de um monte de gente. Só que ninguém consegue expressar. Daqui.

We few, we happy few

Nossas aventuras, nossos encantos e encantamentos, as pessoas que carregamos conosco, quer elas saibam ou não: nossos amores.
Aqueles que atravessam as situações conosco, as ruins e as boas, ficam marcados em nosso corações, eles simplesmente fazem parte do cenário.
Evocada a fase da vida que passou, lá estão os que ficaram, os que estenderam a mão, os que beijaram, os que, ombro a ombro com você, mataram dragões, resgataram mocinhas, salvaram vilas, espantaram as bruxas. Os que passaram frio conosco. Os que dormiram em nossas camas, os que deitaram em nossos corações, nos emprestaram isqueiros, fumaram dos nossos cigarros. Aqueles que, conosco, venceram a Batalha de São Crispin e que para sempre, tenhamos ou não contato, saibamos ou não das vidas uns dos outros passados tantos e tantos anos, são nossos irmãos, nossos camaradas, ah, we few, we happy few, we band of brothers.
Esta não foi uma semana fácil, não foi uma semana bonita, e ao me deparar nos últimos dias com duas situações diferentes mas iguais, dei-me conta que as situações que vivemos, você e eu, existem apenas e tão somente na cabeça de cada um. E que o sentido de cada palavra e o significado de cada gesto é particular e intransferível: eu não estou na dentro da sua cabeça e nem você está dentro da minha. O tempo passa, inexorável (apenas para usar uma palavra que nossa doce Raquel adora), nós mudamos em processos separados e o que foi e não foi, houve e não houve, aconteceu e não aconteceu, ganha novos porques, novas dores, novos gozos, reveste-se de novas cores, revela outras verdades.
Hoje é sexta-feira e convencionamos que um pequeno ciclo acaba - se tivermos sorte, na beirada de uma taça de mojito. Que nosso ciclo recomece segunda-feira, meu querido, minha querida, que possamos pertencer a algum band of brothers (ainda que só nas nossas lembranças), mas que nossos vínculos, pelo menos alguns, pelos menos às vezes, permaneçam ou, no mínimo, possam ser resgatados quando fechamos os olhos.
Há também os que fugiram, os que traíram, os que negaram três vezes, os que não quiseram nem saber, claro, mas essa foi uma semana muito, muito longa, dolorosa e surreal – pude ver relógios derretidos, senhores espanhóis com bigodes engraçados fingindo que eram caracóis, crucificados, paisagens desoladas, azuis incríveis e marrons aterradores - e não quero falar sobre os que não permanecem. Não agora.
Hasta la vista, baby.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Queridos amigos 2

Eu estava tentando escrever algo legal sobre um reencontro de ontem e não saía nada. Até que um pequeno texto traduzido aqui me deu o empurrão.

Um dia você está de emblema estrelado no peito dividindo um bife à milanesa no Plebeu e a mesa de estudo na madrugada. Num piscar de olhos se passaram 20 anos. Mas você ainda olha para trás com encantamento, com espanto e com admiração pelas pessoas que estavam ao seu redor.

Há 20 anos éramos um pequeno grupo muito unido no estudo e nas noitadas. Cada um do seu jeito descobria a vida, o mundo, as amizades e os amores. A maior lembrança é das risadas. Nós ríamos sempre e muito. Nós estudávamos muito, mas nos divertíamos imensamente e trocávamos e aprendíamos sobre cinema, literatura, arte, filosofia. E gostávamos de estar juntos.

Alguns continuaram em contato por todo esse tempo e amadureceram a amizade. Cresceram, sofreram, deram mais risadas e se ajudaram. Casaram, separaram, tiveram ou não filhos, construíram carreiras. Outros permaneciam próximos apenas nas lembranças.

Somos todos nostálgicos e ontem, após diversas e frustradas tentativas, nos juntamos na mesa de um bar. Alguns faltaram, mas foram exatamente aqueles que deveriam ir. Uma sanitarista, uma livreira, uma publicitária, uma advogada, um filósofo e um ator. Que ali eram apenas bons e velhos amigos. Que beberam e deram muitas risadas por 6 deliciosas horas. E nós vimos que não mudamos nada. Que a dinâmica do grupo permaneceu exatamente a mesma. As mesmas implicâncias, os mesmos comentários, as mesmas preferências, os mesmos ciúmes. O mesmo carinho. A mesma admiração e imensa felicidade por ter conhecido cada um deles.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Palavras de Nise da Silveira

... prefiro ser uma loba faminta, a ser um cão gordo e encoleirado...

Gosto de gente diferente e até perigosa, pois essa gente modifica, transforma. Não há evolução sem riscos.

Parece um sinal que minha tese universitária tenho sido sobre criminalidade da mulher no Brasil. Já me atraíam pessoas assim, que não estivessem muito dentro das normas... Os marginais. Em muitos sentidos, eu me sinto marginal.

Meu pai dizia: 'Nise, vai até a cabeceira de minha cama e pega o revólver'. Minha mãe ficava furiosa: 'E se esta menina cai e o revólver dispara, Faustino?!' Ela enrolava a arma num lenço, pra me proteger, como se bala de revólver não furasse tecido... De modo que, desde pequena, eu pego em revólver como quem pega em livro.

Servi de agulha para muita linha ordinária.

A contaminação psíquica é pior que piolhos. Vai passando de uma cabeça para outra, numa rapidez incrível. E, como você sabe, todo mundo já pegou piolho... Se um dia causarmos uma catástofre nuclear na Lua, será obra do psiquismo.

Para navegar contra a corrente, são necessárias algumas qualidades raras: espírito de aventura, coragem, perseverança e, sobretudo, paixão.

Tanto remédio pra quê?! Remédio é ir dançar no carnaval.

Uma pessoa que não se espante está perdida.

Rasguem os manuais de psiquiatria! Leiam Machado de Assis. Seria mais proveitoso trocar certos tratados de psiquiatria pelos livros deste que é o maior escritor brasileiro de todos os tempos, meu primeiro grande mestre da psicologia. Suas obras analisam com mais profundidade a alma humana. Quem quiser aprender psicologia, pra valer, deve ler Machado. Não houve melhor psicólogo, no mundo. Ele rivaliza com William Shakespeare, que também era escritor - ambos saíram-se grandes autores de psicologia.


Em Nise - Arqueóloga dos mares, Bernardo Horta, Aeroplano Editora.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Eu sou abusada, largada, irônica. Eu rio alto e falo palavrão. Eu tenho longos cachos e odeio escova progressiva, com ou sem formol, odeio fios lisos. Eu sou chata, gosto dos detalhes, gosto de entender tudo, analiso cada olhar, cada palavra, cada gesto. Eu fico triste com facilidade e caio na gargalhada com facilidade. Eu gosto de cerveja, de vinho e de sakê. Eu sou leitora viciada e chocólatra assumida. Eu não gosto de nada perfeitinho, controlado, medido, não gosto de restaurantes finos e festas chiques. Gosto de pastel de botequim, dançar na Lapa, caminhar na praia.
Gosto de quem tá longe e não agüento quem tá perto.