Em sua primeira aula, Dolores nos pediu para contar um fragmento de nossa história como leitor. Eu preferi contar um momento atual: quando estou me descobrindo como contadora de histórias.
Eu já li esporadicamente para meus sobrinhos e para filhos de amigos, mas nunca para um público estranho. E jamais pude me imaginar lendo para um público tão especial como o que me ouve hoje.
Este foi um ano de descobertas. Apesar de trabalhar há 17 anos no mercado editorial, somente agora voltei a estudar e comecei a desvendar na teoria a importância do ato de ler e a formação de leitores. A escolha por este curso, é claro, vem desse novo interesse.
Nessa busca participei do Salão do Livro Infantil e Juvenil, em julho, e me encantei com a palestra da pedagoga Madalena Oliveira, coordenadora do projeto Biblioteca Viva, no Instituto Fernandes Figueira. A imagem da leitura para os bebês internados na UTI neo-natal é algo que marcou a ferro e fogo meu acervo particular. Naquele momento eu decidi mudar o rumo da minha vida profissional.
Um mês depois escrevi para Madalena e sou, desde setembro, uma feliz voluntária do projeto. E foi assim que conheci a contadora de histórias que habita em mim. Ainda uma contadora vacilante e um pouco insegura, que segue mais a intuição do que as teorias, mas que se encanta e se descobre a cada semana.
Madalena me colocou no Ambulatório de Neurologia. Contar histórias no Ambulatório de Neurologia de um hospital público me assombra e me mostra o poder dessa prática. Acho que não há teoria que explique o que significa despertar o sorriso e carinhas de espanto em crianças tão debilitadas não só fisicamente, como psicologica e afetivamente.
Eu leio para autistas, portadores da síndrome de down e das mais diversas deficiências. Algumas eu nem saberia explicar. Quando uma dessas crianças sorri ou deixa surgir o brilho no olhar... não há nada melhor. Quando um pai ou mãe diz com espanto: “eu achava que meu filho não sentia nada, não reagia a nada e agora...”, isso explica melhor do que qualquer discurso acadêmico a importância de ler e compartilhar histórias.